São pensamentos soltos, traduzidos em palavras..
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
É como eu falei uma vez, "Todo mundo cultiva putaria e espera colher amor". Fica difícil né? É gente querendo derrubar, gente que não sabe lutar, resistir. Gente que desiste e chora e acha que não tem solução. Eu sei, eu sei, é lindo na teoria e complicado na prática, mas ninguém precisa morrer pra aprender a viver. Pra falar a verdade, me dá uma coceira dos diabos quando ouço ou leio alguém falar que o amor não vale de nada e que hoje em dia o lance é dar na mesma moeda, é não se importar, não confiar e bla bla bla. Ora essa, se todo mundo pensar assim, realmente não haverá em quem confiar, quem perdoar, com quem ficar. Amor pra ser amor tem que ser algo pelo qual se lute, se trabalhe, se conquiste. A pessoa se arruma, se perfuma inteira e saí sorridente achando que ao virar a esquina vai encontrar o amor perfeito. Nunca foi assim e nunca vai ser. Sabe aquele cara que você conheceu na outra noite? Ele era maravilhoso, né? Super simpático, gentil e atraente. Pegou seu celular. Possivelmente ele não te ligue, mas e daí? Tem outros caras por aí igualmente simpáticos, gentis e atraentes. O cara encontra uma garota bonita e educada na fila da padaria, daí ele pensa "queria uma namorada assim", sorri e permanece calado. Tá querendo o que, cara? Que o cupido venha e fleche ela? Puxa assunto, dá bom dia, fala que o céu ta bonito, mas reage. Ninguém nunca conseguiu vencer uma luta sem apanhar um pouco, qual é! Hoje em dia os caras esperam mulheres perfeitas, mas nem sequer dão o primeiro passo e as mulheres acham que todos os homens são iguais e nem se dão a luxo de dar o número certo de telefone. Quer saber o que ta acontecendo? Falta verdade, falta vontade e falta amor. É isso aí, muita falação e pouco amor. Muita putaria e pouco carinho. Muito interesse e pouca preocupação. Como as pessoas esperam encontrar amor se elas nem se dão ao trabalho de procurar? E quando procuram, só olham atrás do sofá, debaixo do tapete e já desistem por causa da poeira? Só me façam um favor, antes de dizer que amor de verdade não existe, experimente serem verdadeiros. Consigo mesmos e com os outros. Talvez vocês encontrem algo além de poeira. Talvez vocês encontrem algo pelo que valha a pena falar. Por hora, calem a boca e curtam sua putaria e deem nomes aos bois, porque romances de três minutos só serve pra quem come miojo. E quem só espera pelo miojo nunca vai saber o gostinho de carbonara.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
- Como você tá?- Ele me perguntou baixinho ao telefone. Era uma da manhã.
- Bem. E você?- Eu falei enquanto sentava na cama. Estava um pouco surpresa, eu confesso. Faziam alguns meses. Tipo, uns dezesseis.
- Bem também.- Ele respondeu.
Um silêncio perturbador se instalou entre nós. Perceptivelmente fraco para que nos desse motivos pra desligar, absurdamente forte pra impedir que isso acontecesse.
- Acho que deu saudade.- Ele falou apressado.
- Ahn..
- Você sente saudades?
- Não.
- No que você tá pensando agora?
- Você não quer saber..
- Eu perguntei ué..
-Acho melhor não dizer. - fiz uma pausa - Porque essa ligação depois de tanto tempo?
- Já disse, ué. Deu saudade.
- Ahn..
- Muita saudade.
- Ok. Eu entendi na primeira vez, Vinícius.
- Tá brava?
- Não.
- Pois parece. Eu lembro que quando eu repetia as coisas, você ficava brava.
- Isso era antes. Agora tanto faz. - Mentira, aquilo me irritava bastante.
- Ahn, então você mudou?
- Sei lá. Acho que sim.
- Que triste. Eu amava você.
- Hum..
-Digo amava porque se você mudou não sei se amo essa nova Ariel. Por falar nisso, essa mudança inclui se irritar com o fato de eu te chamar de pequena sereia?-Que ridículo. As conversas dele não pareciam tão idiotas assim antes. Ou ele piorou, ou eu comecei a enxergar as coisas como elas realmente eram.
- Inclui sim, Vinícius. Por isso pode parar.
- Mas seus cabelos são até ruivos iguais aos dela.
- Pois é, uma pena eu não ter o rabo verde né?
Ele riu.
- Também é uma pena você não saber nadar, né?
- Pois é.- respondi sem paciência e tratei de mudar de assunto- Como anda o namoro?
- Não anda, quebrou as pernas e morreu de hemorragia.
- Você e suas metáforas.
- Mas foi basicamente isso. A confiança quebrou, o que pra mim é o que sustenta um relacionamento. Se eu considerar confiança como pernas e relacionamento como um corpo, eu acertei na metáfora.
- Tá certo, Vinícius. E a hemorragia?- Me odiei por incentivar a continuação dessa conversa imbecil.
- Com a quebra, o amor vazou até não restar mais nada. Por isso, houve a morte.
- Que droga de conversa numa horas dessas.
- Eu sei, mas foi você que perguntou.
- Que seja. Agora vou desligar.
- Pera, Ariel.
- Diz, Vinícius.
- O que você sentiu ao conversar comigo?
Demorei uns dois minutos pra responder.
- Quer que eu seja sincera?
- Quero.
- Nada. Por incrível que pareça.
- Ah, tudo bem.Que bom! Achei que nunca ia passar esse vício de mim.
- Pra você ver. Se eu consegui isso, a cura pro câncer jájá aparece.- Que piada ridícula.
- Então boa noite.
- Boa.
- Desculpa ter ligado.
- Não tem problema. Eu ainda devo ser a pessoa pra quem você corre quando seus relacionamentos quebram as pernas. Por falar nisso, cuidado, nunca se sabe quando vai ser a vez das suas.
- Que malvada, Ari. Mas não se preocupe, as minhas são fortes.
- Anram. Tchau.
- A gente se fala.- Elu não respondi, apenas desliguei.
Depois de desligar, deitei na cama. Parecia que o travesseiro tava pior, a cama não se encaixava perfeitamente na minha coluna e os lençois pareciam me sufocar ao mesmo tempo que não me protegiam do frio. Peguei o celular. Comecei a digitar uma mensagem pra ele. Já estava começando a escrever quando o celular deu sinal de nova mensagem. Era dele.
Bateu um vazio. Mas não é porque hoje é domingo. Não.. Esse vazio não é o vazio de domingo. É vazio de não ter você comigo. É aquele vazio que podia ser preenchido, mas não está. Talvez seja estranho falar disso, talvez eu não quisesse, mas o que mais eu poderia fazer? É..eu poderia fazer muitas outras coisas, mas acho que agora, agora mesmo eu só quero te escrever. E, embora não tenha muito o que dizer, ou não queira falar tudo que eu tô sentindo, acho que é o melhor que posso fazer agora. Por mim e por você. Mas eu queria que você soubesse que eu sei que fiz tudo errado com você, com a gente. Dei vários passos precipitados e incoerentes. Te fiz chorar e maltratei seu coração. Muita gente olharia pra esse histórico e diria: "isso nunca foi amor". Bem, pode não parecer, mas sempre foi amor. Foi amor em cada parte de cada medo que tive, foi amor em cada momento de preocupação em fazer dar certo. Foi amor em cada pedaço que me era arrancado quando eu vacilava, em cada gota de sangue que em mim circulava e em cada molécula de oxigênio que me mantinha vivo. É amor, sempre foi. Por mais torto e louco que seja, é amor. Por mais torturante e estranho que seja, é amor. Por mais que eu nunca saiba o que dizer ou fazer, por mais que escolha palavras e momentos errados, por mais que meu humor mude constantemente, tudo que eu sinto aqui é amor, e é amor por você. Desde que a gente se falou pela primeira vez, eu soube que eu nunca mais conseguiria te tirar da minha vida. Mas por ironia do destino ou qualquer baboseira do tipo, eu tive que me retirar da sua. Por vezes eu falei o que não devia e deixei de falar o que queria. Por vezes eu deixei esse medo idiota tomar conta de mim e me fazer abandonar o barco. Mas eu voltei e olhe só, agora estou remando sozinho, sem destino..sem você pra remar comigo esse barco furado. O que vai acontecer, a gente pode prever, o barco vai afundar e eu nem tive tempo de dizer que eu faria qualquer coisa pra consertar tudo e não te perder de vez.
Ele podia ser o maior idiota do mundo quando falava, mas ao escrever, o filho da puta dava um show. Felizmente eu estava vacinada e pela primeira vez eu não escrevi algo pra depois apagar. Dessa vez eu enviei de verdade. Não aguentava mais engolir tudo, engasgar tudo. Eu precisava que ele soubesse. E precisava me livrar de tudo aquilo. E foi aí que eu digitei:
Você vem e faz isso comigo. Faz porque sabe que o simples toque de um celular que mostra seu nome na tela me fazia sorrir, faz porque sabe da forte necessidade que eu tinha de você, faz porque sabia como me manter sempre aqui pra você. Você ia, me esquecia por uns dias -dessa vez foram meses, com direito a uma nova namorada- e depois voltava pra checar se eu ainda estava aqui, dizia palavras carinhosas e sussurrava um ‘já volto’ que duraria alguns dias- ou mais alguns meses. E eu ficava aqui, olhando pro celular todas as noites esperando que você desse algum sinal, inventando diálogos em que você decidia ficar. Daí quando eu me distraía, começava a procurar outros rumos, você aparecia de novo e eu ficava radiante de novo. Mas hoje, eu me peguei levantando uma das minhas sobrancelhas. Se eu fosse realmente o que você quer, você teria ficado de vez ha muito tempo e não voltaria só pra checar se ainda estava aqui. Sempre houve um desequilíbrio de prioridades, eu te queria no time titular e você me pedia pra esquentar o banco. Eu ficava torcendo pra entrar em campo, fazer um gol e te mostrar que eu sou mais do que você imagina, mas ficava difícil com você sempre me impedindo de jogar pra valer. E foi por cansar de amistosos, que eu finalmente desisti de esperar pelo campeonato.
P.s.: Acho que finalizei com chave de ouro. Sms cheia de metáforas (:
Coloquei o celular no chão ao lado da cama e fui ser feliz, porque de choro e sufoco a cota já tava preenchida. E o Vinícius? Ah, sei lá. Vai ver tá no inferno junto com todas as falsas promessas. Ou tá por aí com os relacionamento paraplégicos dele. Outro dia comprei um chip novo e garanti que minha vida fosse igualmente nova. A ele eu agradeço uma coisinha só, o fato de ter me ligado aquela noite. Foi naquele dia que eu resolvi mandá-lo pra puta que o pariu. De vez.
- Bem. E você?- Eu falei enquanto sentava na cama. Estava um pouco surpresa, eu confesso. Faziam alguns meses. Tipo, uns dezesseis.
- Bem também.- Ele respondeu.
Um silêncio perturbador se instalou entre nós. Perceptivelmente fraco para que nos desse motivos pra desligar, absurdamente forte pra impedir que isso acontecesse.
- Acho que deu saudade.- Ele falou apressado.
- Ahn..
- Você sente saudades?
- Não.
- No que você tá pensando agora?
- Você não quer saber..
- Eu perguntei ué..
-Acho melhor não dizer. - fiz uma pausa - Porque essa ligação depois de tanto tempo?
- Já disse, ué. Deu saudade.
- Ahn..
- Muita saudade.
- Ok. Eu entendi na primeira vez, Vinícius.
- Tá brava?
- Não.
- Pois parece. Eu lembro que quando eu repetia as coisas, você ficava brava.
- Isso era antes. Agora tanto faz. - Mentira, aquilo me irritava bastante.
- Ahn, então você mudou?
- Sei lá. Acho que sim.
- Que triste. Eu amava você.
- Hum..
-Digo amava porque se você mudou não sei se amo essa nova Ariel. Por falar nisso, essa mudança inclui se irritar com o fato de eu te chamar de pequena sereia?-Que ridículo. As conversas dele não pareciam tão idiotas assim antes. Ou ele piorou, ou eu comecei a enxergar as coisas como elas realmente eram.
- Inclui sim, Vinícius. Por isso pode parar.
- Mas seus cabelos são até ruivos iguais aos dela.
- Pois é, uma pena eu não ter o rabo verde né?
Ele riu.
- Também é uma pena você não saber nadar, né?
- Pois é.- respondi sem paciência e tratei de mudar de assunto- Como anda o namoro?
- Não anda, quebrou as pernas e morreu de hemorragia.
- Você e suas metáforas.
- Mas foi basicamente isso. A confiança quebrou, o que pra mim é o que sustenta um relacionamento. Se eu considerar confiança como pernas e relacionamento como um corpo, eu acertei na metáfora.
- Tá certo, Vinícius. E a hemorragia?- Me odiei por incentivar a continuação dessa conversa imbecil.
- Com a quebra, o amor vazou até não restar mais nada. Por isso, houve a morte.
- Que droga de conversa numa horas dessas.
- Eu sei, mas foi você que perguntou.
- Que seja. Agora vou desligar.
- Pera, Ariel.
- Diz, Vinícius.
- O que você sentiu ao conversar comigo?
Demorei uns dois minutos pra responder.
- Quer que eu seja sincera?
- Quero.
- Nada. Por incrível que pareça.
- Ah, tudo bem.Que bom! Achei que nunca ia passar esse vício de mim.
- Pra você ver. Se eu consegui isso, a cura pro câncer jájá aparece.- Que piada ridícula.
- Então boa noite.
- Boa.
- Desculpa ter ligado.
- Não tem problema. Eu ainda devo ser a pessoa pra quem você corre quando seus relacionamentos quebram as pernas. Por falar nisso, cuidado, nunca se sabe quando vai ser a vez das suas.
- Que malvada, Ari. Mas não se preocupe, as minhas são fortes.
- Anram. Tchau.
- A gente se fala.- Elu não respondi, apenas desliguei.
Depois de desligar, deitei na cama. Parecia que o travesseiro tava pior, a cama não se encaixava perfeitamente na minha coluna e os lençois pareciam me sufocar ao mesmo tempo que não me protegiam do frio. Peguei o celular. Comecei a digitar uma mensagem pra ele. Já estava começando a escrever quando o celular deu sinal de nova mensagem. Era dele.
Bateu um vazio. Mas não é porque hoje é domingo. Não.. Esse vazio não é o vazio de domingo. É vazio de não ter você comigo. É aquele vazio que podia ser preenchido, mas não está. Talvez seja estranho falar disso, talvez eu não quisesse, mas o que mais eu poderia fazer? É..eu poderia fazer muitas outras coisas, mas acho que agora, agora mesmo eu só quero te escrever. E, embora não tenha muito o que dizer, ou não queira falar tudo que eu tô sentindo, acho que é o melhor que posso fazer agora. Por mim e por você. Mas eu queria que você soubesse que eu sei que fiz tudo errado com você, com a gente. Dei vários passos precipitados e incoerentes. Te fiz chorar e maltratei seu coração. Muita gente olharia pra esse histórico e diria: "isso nunca foi amor". Bem, pode não parecer, mas sempre foi amor. Foi amor em cada parte de cada medo que tive, foi amor em cada momento de preocupação em fazer dar certo. Foi amor em cada pedaço que me era arrancado quando eu vacilava, em cada gota de sangue que em mim circulava e em cada molécula de oxigênio que me mantinha vivo. É amor, sempre foi. Por mais torto e louco que seja, é amor. Por mais torturante e estranho que seja, é amor. Por mais que eu nunca saiba o que dizer ou fazer, por mais que escolha palavras e momentos errados, por mais que meu humor mude constantemente, tudo que eu sinto aqui é amor, e é amor por você. Desde que a gente se falou pela primeira vez, eu soube que eu nunca mais conseguiria te tirar da minha vida. Mas por ironia do destino ou qualquer baboseira do tipo, eu tive que me retirar da sua. Por vezes eu falei o que não devia e deixei de falar o que queria. Por vezes eu deixei esse medo idiota tomar conta de mim e me fazer abandonar o barco. Mas eu voltei e olhe só, agora estou remando sozinho, sem destino..sem você pra remar comigo esse barco furado. O que vai acontecer, a gente pode prever, o barco vai afundar e eu nem tive tempo de dizer que eu faria qualquer coisa pra consertar tudo e não te perder de vez.
Ele podia ser o maior idiota do mundo quando falava, mas ao escrever, o filho da puta dava um show. Felizmente eu estava vacinada e pela primeira vez eu não escrevi algo pra depois apagar. Dessa vez eu enviei de verdade. Não aguentava mais engolir tudo, engasgar tudo. Eu precisava que ele soubesse. E precisava me livrar de tudo aquilo. E foi aí que eu digitei:
Você vem e faz isso comigo. Faz porque sabe que o simples toque de um celular que mostra seu nome na tela me fazia sorrir, faz porque sabe da forte necessidade que eu tinha de você, faz porque sabia como me manter sempre aqui pra você. Você ia, me esquecia por uns dias -dessa vez foram meses, com direito a uma nova namorada- e depois voltava pra checar se eu ainda estava aqui, dizia palavras carinhosas e sussurrava um ‘já volto’ que duraria alguns dias- ou mais alguns meses. E eu ficava aqui, olhando pro celular todas as noites esperando que você desse algum sinal, inventando diálogos em que você decidia ficar. Daí quando eu me distraía, começava a procurar outros rumos, você aparecia de novo e eu ficava radiante de novo. Mas hoje, eu me peguei levantando uma das minhas sobrancelhas. Se eu fosse realmente o que você quer, você teria ficado de vez ha muito tempo e não voltaria só pra checar se ainda estava aqui. Sempre houve um desequilíbrio de prioridades, eu te queria no time titular e você me pedia pra esquentar o banco. Eu ficava torcendo pra entrar em campo, fazer um gol e te mostrar que eu sou mais do que você imagina, mas ficava difícil com você sempre me impedindo de jogar pra valer. E foi por cansar de amistosos, que eu finalmente desisti de esperar pelo campeonato.
P.s.: Acho que finalizei com chave de ouro. Sms cheia de metáforas (:
Coloquei o celular no chão ao lado da cama e fui ser feliz, porque de choro e sufoco a cota já tava preenchida. E o Vinícius? Ah, sei lá. Vai ver tá no inferno junto com todas as falsas promessas. Ou tá por aí com os relacionamento paraplégicos dele. Outro dia comprei um chip novo e garanti que minha vida fosse igualmente nova. A ele eu agradeço uma coisinha só, o fato de ter me ligado aquela noite. Foi naquele dia que eu resolvi mandá-lo pra puta que o pariu. De vez.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
- Qual é o seu problema? - Ele perguntou aos gritos enquanto gesticulava e parecia arrancar os cabelos.
Ela permaneceu estática. Os olhos não mexiam mas estavam marejados, a respiração saia pesada e o coração batia exageradamente rápido. Ele se aproximou e a sacudiu segurando seus ombros com força.
- Me responde! Fala alguma coisa! Explica que merda foi essa!
- Eu te amo.
- Tem certeza? Porque depois do que aconteceu eu não consigo acreditar. - Ele cobriu o rosto com as mãos e permitiu-se chorar desesperadamente por alguns instantes. De repente, ajoelhou-se em frente a ela e procurou seu rosto meio aos fios loiros reluzentes. - Eu deixei de fazer algo pra que você precisasse buscar em outro cara?
Ela o olhava sem conseguir dizer umas só palavra. Seu rosto estava da cor de um tomate maduro, resultado por ser branca demais.
- Fala alguma coisa, pelo amor de Deus! Não me deixa sair por aquela porta e nunca mais querer te ver. Me convence de que isso não passou de um erro bobo, me convence de que você realmente me ama! - Ele falava com a voz rouca e apressada, num desespero infinito.
Ela continuava lá com os olhos transbordando e o corpo imóvel. Ele sentou na mesinha de centro, em frente a ela e perguntou:
- Você tá apaixonada por ele? - Agora a voz de Marcelo assemelhava-se a de uma criança que não sabia lidar com a realidade.
Ela continuou imóvel, o que fez com que ele tirasse suas próprias conclusões. Conclusões essas que poderiam estar equivocadas, mas que até então ela não ajudara a esclarecer. Ele olhou para os lados, tudo naquele apartamento lembrava os dois juntos. O sofá velho guardava inúmeras noites de filmes e respingos de vinho. A varanda tinha cheiro do cigarro que ele fumava logo após transarem intensa e romanticamente. A cozinha possuía ecos das risadas que zombavam da falta de jeito dos dois com as panelas. O banheiro guardava o cheiro dos diversos shampoos para cabelos loiros. O quarto era a pior parte, possuía a sensação de conforto mesmo com a cama velha e quebrada. Os lençois guardavam o calor dos corpos quando se encontravam e a janela escondia segredos revelados durante as madrugadas de amor. Como diabos ele iria escapar daquilo?
- Eu não queria.. Eu nunca achei que pudesse acontecer. - Amanda o interrompeu falando entre soluços. - Eu sempre imaginei um futuro ao seu lado. Só ao seu lado. Eu nem sei por onde começar..- fez uma pausa- me perdoa?- foi a primeira vez que ela o olhou nos olhos naquela noite.
- Perdoar por você não me amar mais? Quem tem culpa por isso?- Ele baixou a cabeça e continuou um choro silencioso. Nem se lembrava a última vez que tinha quebrado por dentro.
- Eu amo você sim.
- Mas gosta de outra pessoa. E você não pode querer duas pessoas. Além do mais.. eu acho que não mereço isso.
Ela o encarou por alguns segundos e então foi sua vez de ajoelhar-se.
- Olha pra mim! - Ela falou enquanto erguia sutilmente o queixo dele com a ponta dos dedos- Eu fui idiota de arriscar o que nós temos por alguém que não significa nada pra mim. Você é quem eu preciso. Agora e pra sempre. Me perdoa por perceber isso só quando fiz merda. Eu sei que você não deveria me querer mais, mas preciso ser cara de pau e pedir que me queira. Mesmo eu sendo toda errada e cheia de defeitos. Mesmo eu tendo te magoado fundo..
- Você tá me pedindo que eu aceite o que você fez?
- Não, tô pedindo que no seu tempo, você me perdoe pelo que fiz.
- Obrigada. - Ele falou olhando-a estranho.
- Não entendi. - Ela falou sinceramente.
- Obrigada por tentar. - Ele então pegou a jaqueta, as chaves e os cigarros, abriu a porta e antes de sair, parou. -Quando eu voltar, não quero mais coisa alguma sua por aqui.
- Sinto muito, mas quando você voltar eu ainda vou estar aqui. - Ela respondeu sem olhar para trás e complementou - Você é tudo que eu quero pra mim pra sempre. Eu cometi um erro, mas eu não posso permitir que você vá embora da minha vida, porque quando eu olho pra frente, somos nós dois juntos que eu enxergo. E eu não vou mudar isso. E vou te convencer a fazer o mesmo.
- Então eu não vou voltar, já que você não vai embora. - Ele falou segurando a maçaneta com força.
- Eu vou esperar até que você precise voltar.
Ele fechou a porta numa batida estridente e foi até ela, levantou-a pelos ombros e a sacudiu.
- Porque você faz isso comigo?
- Porque eu sou egoísta e não sei viver sem você.
Ele a olhou com muita raiva, mas após alguns segundos sua expressão mudou. Sentiu-se confortável dentro daqueles olhos azuis familiares e tão seus. Parou de apertar os ombros dela.
- Porque eu não consigo ir?
- Porque aonde quer que vá, eu vou estar. Não importa o quanto nós fujamos um do outro, nós sempre acabaremos querendo voltar. Porque é na minha falta de jeito com as coisas e na sua obsessão por querer resolver tudo que o nosso amor se encontra e se encaixa. Porque não há no mundo força maior do que essa que nos une.
- Você fala tudo isso porque quer que eu fique.
- Não, eu falo tudo isso porque você já ficou. E ficou porque sabe de tudo isso. Ficou porque por mais difícil que seja passar por cima disso tudo que aconteceu, você tá disposto a fazer.
- Eu te amo, droga!
- Eu também. Me perdoa? Deixa eu te ajudar a achar o caminho de volta? Deixa eu me segurar em você pra não mais me perder?
Ele assentiu e chorou por mais algumas horas dentro do abraço familiar. E naquela noite fizeram amor. Estranhamente, o melhor desde que se conhecem. E foi na sensação de pertencimento mútuo que eles perceberam que os caminhos deles sempre estariam unidos, não por forças do destino ou coisa do tipo, mas porque se amavam demais, demais pra deixar partir o que a muito custo mantinham inteiro. Foi uma noite com um quê de culpa, de decepção, de desconforto, sofrimento e desconstrução, mas foi também uma noite de recomeço. Um recomeço que mudou a vida dos dois. E fez aquela acontecimento virar uma pedra que não deveria estar lá, mas que ajudou em muita coisa.
Ela permaneceu estática. Os olhos não mexiam mas estavam marejados, a respiração saia pesada e o coração batia exageradamente rápido. Ele se aproximou e a sacudiu segurando seus ombros com força.
- Me responde! Fala alguma coisa! Explica que merda foi essa!
- Eu te amo.
- Tem certeza? Porque depois do que aconteceu eu não consigo acreditar. - Ele cobriu o rosto com as mãos e permitiu-se chorar desesperadamente por alguns instantes. De repente, ajoelhou-se em frente a ela e procurou seu rosto meio aos fios loiros reluzentes. - Eu deixei de fazer algo pra que você precisasse buscar em outro cara?
Ela o olhava sem conseguir dizer umas só palavra. Seu rosto estava da cor de um tomate maduro, resultado por ser branca demais.
- Fala alguma coisa, pelo amor de Deus! Não me deixa sair por aquela porta e nunca mais querer te ver. Me convence de que isso não passou de um erro bobo, me convence de que você realmente me ama! - Ele falava com a voz rouca e apressada, num desespero infinito.
Ela continuava lá com os olhos transbordando e o corpo imóvel. Ele sentou na mesinha de centro, em frente a ela e perguntou:
- Você tá apaixonada por ele? - Agora a voz de Marcelo assemelhava-se a de uma criança que não sabia lidar com a realidade.
Ela continuou imóvel, o que fez com que ele tirasse suas próprias conclusões. Conclusões essas que poderiam estar equivocadas, mas que até então ela não ajudara a esclarecer. Ele olhou para os lados, tudo naquele apartamento lembrava os dois juntos. O sofá velho guardava inúmeras noites de filmes e respingos de vinho. A varanda tinha cheiro do cigarro que ele fumava logo após transarem intensa e romanticamente. A cozinha possuía ecos das risadas que zombavam da falta de jeito dos dois com as panelas. O banheiro guardava o cheiro dos diversos shampoos para cabelos loiros. O quarto era a pior parte, possuía a sensação de conforto mesmo com a cama velha e quebrada. Os lençois guardavam o calor dos corpos quando se encontravam e a janela escondia segredos revelados durante as madrugadas de amor. Como diabos ele iria escapar daquilo?
- Eu não queria.. Eu nunca achei que pudesse acontecer. - Amanda o interrompeu falando entre soluços. - Eu sempre imaginei um futuro ao seu lado. Só ao seu lado. Eu nem sei por onde começar..- fez uma pausa- me perdoa?- foi a primeira vez que ela o olhou nos olhos naquela noite.
- Perdoar por você não me amar mais? Quem tem culpa por isso?- Ele baixou a cabeça e continuou um choro silencioso. Nem se lembrava a última vez que tinha quebrado por dentro.
- Eu amo você sim.
- Mas gosta de outra pessoa. E você não pode querer duas pessoas. Além do mais.. eu acho que não mereço isso.
Ela o encarou por alguns segundos e então foi sua vez de ajoelhar-se.
- Olha pra mim! - Ela falou enquanto erguia sutilmente o queixo dele com a ponta dos dedos- Eu fui idiota de arriscar o que nós temos por alguém que não significa nada pra mim. Você é quem eu preciso. Agora e pra sempre. Me perdoa por perceber isso só quando fiz merda. Eu sei que você não deveria me querer mais, mas preciso ser cara de pau e pedir que me queira. Mesmo eu sendo toda errada e cheia de defeitos. Mesmo eu tendo te magoado fundo..
- Você tá me pedindo que eu aceite o que você fez?
- Não, tô pedindo que no seu tempo, você me perdoe pelo que fiz.
- Obrigada. - Ele falou olhando-a estranho.
- Não entendi. - Ela falou sinceramente.
- Obrigada por tentar. - Ele então pegou a jaqueta, as chaves e os cigarros, abriu a porta e antes de sair, parou. -Quando eu voltar, não quero mais coisa alguma sua por aqui.
- Sinto muito, mas quando você voltar eu ainda vou estar aqui. - Ela respondeu sem olhar para trás e complementou - Você é tudo que eu quero pra mim pra sempre. Eu cometi um erro, mas eu não posso permitir que você vá embora da minha vida, porque quando eu olho pra frente, somos nós dois juntos que eu enxergo. E eu não vou mudar isso. E vou te convencer a fazer o mesmo.
- Então eu não vou voltar, já que você não vai embora. - Ele falou segurando a maçaneta com força.
- Eu vou esperar até que você precise voltar.
Ele fechou a porta numa batida estridente e foi até ela, levantou-a pelos ombros e a sacudiu.
- Porque você faz isso comigo?
- Porque eu sou egoísta e não sei viver sem você.
Ele a olhou com muita raiva, mas após alguns segundos sua expressão mudou. Sentiu-se confortável dentro daqueles olhos azuis familiares e tão seus. Parou de apertar os ombros dela.
- Porque eu não consigo ir?
- Porque aonde quer que vá, eu vou estar. Não importa o quanto nós fujamos um do outro, nós sempre acabaremos querendo voltar. Porque é na minha falta de jeito com as coisas e na sua obsessão por querer resolver tudo que o nosso amor se encontra e se encaixa. Porque não há no mundo força maior do que essa que nos une.
- Você fala tudo isso porque quer que eu fique.
- Não, eu falo tudo isso porque você já ficou. E ficou porque sabe de tudo isso. Ficou porque por mais difícil que seja passar por cima disso tudo que aconteceu, você tá disposto a fazer.
- Eu te amo, droga!
- Eu também. Me perdoa? Deixa eu te ajudar a achar o caminho de volta? Deixa eu me segurar em você pra não mais me perder?
Ele assentiu e chorou por mais algumas horas dentro do abraço familiar. E naquela noite fizeram amor. Estranhamente, o melhor desde que se conhecem. E foi na sensação de pertencimento mútuo que eles perceberam que os caminhos deles sempre estariam unidos, não por forças do destino ou coisa do tipo, mas porque se amavam demais, demais pra deixar partir o que a muito custo mantinham inteiro. Foi uma noite com um quê de culpa, de decepção, de desconforto, sofrimento e desconstrução, mas foi também uma noite de recomeço. Um recomeço que mudou a vida dos dois. E fez aquela acontecimento virar uma pedra que não deveria estar lá, mas que ajudou em muita coisa.
- Acho que não dá mais. – Ele falou parando de comer.
- Acha que não dá mais o que João? Comer? Só pode né? Só
hoje você comeu por três pessoas. - Ela ria enquanto comentava, até que
percebeu a expressão no rosto dele. Calou-se e o fitou.
-Acho que não dá mais pra gente continuar. – Ele desviou o
olhar para não encontrar com o dela.
Carolina estava chocada, não havia sinais anteriores de que
eles estavam mal, não havia uma só pista de que João estava infeliz. Não soube
o que dizer, nem sabia se existia algo pra se dizer agora.
- E como você chegou a essa conclusão?- Ela perguntou e
voltou a se concentrar na comida que não estava mais tão convidativa. Seu
estômago embrulhou-se e sua garganta comprimiu-se.
- Eu sei que vai soar clichê, mas não é você, sou eu. - Ela olhava-o
incrédula. - Eu é que não consigo confiar, eu é que não consigo me entregar
inteiramente e isso me mata. Não conseguir ser inteiro pra você faz com que eu
me sinta um idiota perto da grande mulher que você é.
Carolina olhava para João tentando entender. Isso se ela
realmente conseguisse assimilar tudo que ele ia falando. Era como se seus
ouvidos estivessem quase surdos e sua boca lacrada de tão seca que se tornou
naquele instante. Mesmo assim, ela o olhava gesticular e perder um certo
equilíbrio em suas explicações que não eram nada mais do que mais uma de suas
fugas da felicidade. Ela o amava e o conhecia tanto que reconhecia cada passo
que ele dava, e aquele, definitivamente, era um passo de fuga. Até então não
tinha dado esse passo na caminhada junto dela, e isso vir à tona agora fez com
que ela perdesse os movimentos das próprias pernas.
- Você ta me escutando Carolina?- ele perguntou atordoado.
Ela encheu os pulmões de ar, fechou os olhos por alguns
instantes e respondeu:
- Resumindo: Você tem medo da felicidade que ta sentindo ao
meu lado, acha que as risadas compartilhadas são perigosas e tem medo das
dificuldades que possam surgir. Você quer terminar algo que já dura um ano e
meio porque molha as calças só de pensar na possibilidade disso te tornar
infeliz. Pois bem, João, antes de dizer que entendo, deixe-me dizer que não.
Você tem que aprender que a vida da gente não é só felicidade e que tem sim
momentos de dificuldade, dor e fraqueza. Às vezes, compartilhar tudo isso com
alguém pode ser mais complicado, mas só se a gente deixar que seja. O problema
é que você sempre deixa. Você nunca tenta facilitar. Seu modo de facilitar é
complicando tudo só para comprovar pra si mesmo que “não ia mesmo dar certo”. E
sabe como eu sei de tudo isso? Porque sou sua melhor amiga e mesmo antes de
você entender o que passa nessa sua cabeça doida, eu andei tentando. E até que
vi muitas coisas. Coisas que poderiam me fazer correr pra longe de você. Mas eu
fiquei, sabe João? Porque eu acredito que se a gente gosta e quer fazer dar
certo, a gente faz. A gente não se borra todo e sai correndo com desculpas de “não
é você, sou eu”. Realmente não sou eu. Mas também não é você. Porque desde que
ficamos juntos, somos “nós”. E é isso que as pessoas deveriam entender antes de
dizer essa frase clichê. Se você termina com alguém porque não ta dando certo,
não pode ser só por culpa de um dos dois. A culpa é do “nós” que não soube se
encaixar. E, se me permite dizer, nós nos encaixamos. E nos encaixamos bonito.
E a única coisa que eu quero te perguntar é se você tem certeza de tudo que me
disse aqui, se tem certeza de que não vai dar certo sem realmente tentar, se
vai se recusar a ver o que nós dois podemos fazer juntos pra poder viver uma
vidinha mais ou menos de quem corre do mundo pra poder provar que não pode
fazer parte dele.
João estava imerso na avalanche de palavras que Carolina
despejou sobre ele. E ele sabia o quanto de verdade tinha naquilo. Ele foi
sempre assim, medroso. Mas nunca antes alguém tinha lhe segurado a mão. Até
então, ninguém nunca o segurara apertado e jogara em sua cara tudo que ele
precisava enxergar. Ficou feliz por ser ela, por ser Carolina, a mulher que fez
isso. Não queria ir, sempre soube disso, desde o início do seu discurso barato
de que não iria dar certo. Ele sabia que daria caso tentasse, mas tinha muito
medo de tentar. Ela o resgatou do medo e ele teve a impressão de que isso
aconteceria quantas vezes fosse preciso. E sorriu. Um sorriso sincero e carregado
de esperança. Romances perfeitos não existiam mesmo, pra ele aquilo era o mais
próximo de completo e real que ele poderia e queria ter. Voltou a comer em silêncio enquanto Carolina olhava-o
confusa. Soltou o talher e pegou a mão dela.
- Obrigada por me fazer enxergar que eu nunca quis ir.
Ela estava com uma expressão que misturava raiva e alegria.
- Você sabe que é um grande idiota, né João?
Ele sorriu.
- Fico feliz de ser idiota se ainda assim puder continuar
sendo seu.
Ela sorriu.
- Eu devia te matar.
- Depois a gente resolve isso. Hoje eu comi por três, mas
ainda assim os três estão famintos agora.
Os dois riram. Carolina não precisava de desculpas, entendia
a falta de jeito de João com os próprios medos, não reclamava. Iria segurá-lo
firme até ele se convencer de que não precisava mais ter medo. E João tinha
certeza de que a amava, de que a queria para a vida toda. Talvez não soubesse o
que fazer no meio desse longo caminho, mas tinha convicção de que Carolina o
acompanharia e o ajudaria a descobrir. Foi nesse dia de quase término que João
aprendeu a primeira lição. Confiança.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
“- Quantos segredos dentro dos teus olhos. -ele falou sorrindo pra mim.
Eu não quis dizer coisa alguma. Essa era mais uma frase de efeito que ele usava pra encantar menininhas que nem sabiam direito o que ele quis dizer. Nem ele sabia o que queria realmente dizer com aquilo. Encarei-o por alguns minutos, sorri e respondi:
- Só quem não se interessa pra escutar o que eles têm a dizer, admite o que nem ouve como segredo.
Percebi que ele não entendeu coisa alguma do que eu falei. Como eu podia ser perdidamente apaixonada por um cara que mal sabia pentear os cabelos, que dirá reconhecer meus olhares? Os meus olhos gritavam o que já não era mais segredo. Eu me apaixonei pelo jeito largado, o ar de burrinho e boné virado pra trás. Como diabos eu, tão cheia de exigência com o amor, me deixei levar por um tipinho banal?
- Você quer tomar sorvete?- Ele perguntou mais desligado do que antes.
Sorvete? Ele perguntou se eu quero sorvete?
- Quero.- respondi automaticamente.
Como isso era possível? Minha cabeça processava inúmeros questionamentos acerca do cabeça de vento por quem eu me apaixonara e minhas respostas saiam sem nem titubear.
Ele andava chutando as pedrinhas com o tênis velho e sujo que o deixava ainda mais charmoso. As mãos nos bolsos e os ombros levemente encolhidos.
- Mari, eu escuto sim.- ele falou olhando pro chão.
- Oi?
- Você me acha um maior bobão, acha que eu não entendo suas cortadas sempre que tento dizer algo legal.
- Do que você tá falando, Pedro?
- Você disse “só quem não se interessa pra escutar o que eles têm a dizer, admite o que nem ouve como segredo”. Eu me interesso sim e ouço sim.- ele sorriu um sorriso lindo que me fez querer beijá-lo.
- Ah é? E o que eles dizem?
- Que se eu te beijar agora, você vai adorar.
Olhei pra ele e ri.
- Mas é muita cara de p..- antes que eu pudesse terminar, ele me agarrou pela cintura e me beijou com vontade. Eu perdi a noção de espaço dentro daqueles braços. Depois de alguns minutos, ele interrompeu o beijo e ficou olhando pra mim com aquela cara dele de moleque danado.- Tem razão, eles queriam dizer basicamente isso.
- Na verdade, eles querem dizer que você se apaixonou pelo bobão que não tem coisa alguma a ver com os tipinhos cultos e engomados com quem você costuma ficar. Eles tão me dizendo que nem quando esses caras ficam lendo poesias ou te levando pra ver recital você sente aquele frio na barriga de quando a gente senta na calçada da tua casa e eu toco aquelas músicas que cantam um romance clichê. Eles tão me dizendo que é na minha bermuda surrada, no meu tênis sujo e no meu boné que você sente seu corpo arrepiar. E é por isso e pelas várias outras coisas que ele me conta em SEGREDO o que me faz estar seguro pro que vou fazer agora.
Ele me largou no meio da praça cheia de gente, subiu em um dos bancos e começou a gritar:
- Pessoal! Alô, pessoal? Galeeera, olha aqui. Você também, senhora, presta atenção. Ei moleque, para a bicicleta que um dia você vai querer fazer a mesma coisa. Isso se você encontrar mulher feito essa.- Ele fez que limpou a garganta enquanto levou o a mão fechada até a boca.- Eu sei que pareço moleque, que me visto feito moleque e sou bem lesado feito moleque, mas o que eu quero dizer aqui, é que perto daquela mulher- e apontou pra mim-, eu me sinto um homem. Me sinto o cara mais sortudo do mundo. É isso aí, um puta sortudo. Ela me faz querer endireitar os ombros, ajeitar o boné e querer comprar um tênis novo. Ela me faz querer aprender a cozinhar pra poder fazer um miojo mais elaborado pra ela jantar. Ela me faz querer arrumar a sala da minha casa pra que quando ela chegue, ela se sinta mais confortável. Ela me faz querer dividir a bata frita! Vocês ouviram isso? Quem, em sã consciência, divide a bata frita, mano?! Ela me faz querer subir num banco de praça no meio de uma tarde de terça, com mó galera ao redor pra poder pedir o que eu tenho certeza que é a coisa mais produtiva na minha vida até hoje!- Ele se calou e todo mundo ficou olhando pra ele. Até que um velhinho que tava lendo um jornal no banco do lado perguntou:
- Pedir o que, garoto?
- AH, Obrigada por ter sacado tio!- ele olhou pra mim, sorriu e falou num tom mais sério- Mari, namora comigo? Tô muito na sua.
Todo mundo olhou pra mim e eu fiquei paralisada. Como eu ia imaginar que uma tarde boba daquelas, no meio do caminho pra comprar sorvete, ia acontecer aquilo?
- Tô esperando, Mari.- ele falou impaciente.- E o tiozinho também, ele quer voltar a ler o jornal!
- Eu namoro sim, seu bobão. Agora desce daí e vem dividir o sorvete comigo.
Ele desceu e foi em minha direção, me deu um abraço de urso e em seguida um beijo de encaixe perfeito.
- Mari, vou te fazer feliz, cê sabe né?
- Eu sei, não dividiria um sorvete com você se não tivesse certeza disso.”
Eu não quis dizer coisa alguma. Essa era mais uma frase de efeito que ele usava pra encantar menininhas que nem sabiam direito o que ele quis dizer. Nem ele sabia o que queria realmente dizer com aquilo. Encarei-o por alguns minutos, sorri e respondi:
- Só quem não se interessa pra escutar o que eles têm a dizer, admite o que nem ouve como segredo.
Percebi que ele não entendeu coisa alguma do que eu falei. Como eu podia ser perdidamente apaixonada por um cara que mal sabia pentear os cabelos, que dirá reconhecer meus olhares? Os meus olhos gritavam o que já não era mais segredo. Eu me apaixonei pelo jeito largado, o ar de burrinho e boné virado pra trás. Como diabos eu, tão cheia de exigência com o amor, me deixei levar por um tipinho banal?
- Você quer tomar sorvete?- Ele perguntou mais desligado do que antes.
Sorvete? Ele perguntou se eu quero sorvete?
- Quero.- respondi automaticamente.
Como isso era possível? Minha cabeça processava inúmeros questionamentos acerca do cabeça de vento por quem eu me apaixonara e minhas respostas saiam sem nem titubear.
Ele andava chutando as pedrinhas com o tênis velho e sujo que o deixava ainda mais charmoso. As mãos nos bolsos e os ombros levemente encolhidos.
- Mari, eu escuto sim.- ele falou olhando pro chão.
- Oi?
- Você me acha um maior bobão, acha que eu não entendo suas cortadas sempre que tento dizer algo legal.
- Do que você tá falando, Pedro?
- Você disse “só quem não se interessa pra escutar o que eles têm a dizer, admite o que nem ouve como segredo”. Eu me interesso sim e ouço sim.- ele sorriu um sorriso lindo que me fez querer beijá-lo.
- Ah é? E o que eles dizem?
- Que se eu te beijar agora, você vai adorar.
Olhei pra ele e ri.
- Mas é muita cara de p..- antes que eu pudesse terminar, ele me agarrou pela cintura e me beijou com vontade. Eu perdi a noção de espaço dentro daqueles braços. Depois de alguns minutos, ele interrompeu o beijo e ficou olhando pra mim com aquela cara dele de moleque danado.- Tem razão, eles queriam dizer basicamente isso.
- Na verdade, eles querem dizer que você se apaixonou pelo bobão que não tem coisa alguma a ver com os tipinhos cultos e engomados com quem você costuma ficar. Eles tão me dizendo que nem quando esses caras ficam lendo poesias ou te levando pra ver recital você sente aquele frio na barriga de quando a gente senta na calçada da tua casa e eu toco aquelas músicas que cantam um romance clichê. Eles tão me dizendo que é na minha bermuda surrada, no meu tênis sujo e no meu boné que você sente seu corpo arrepiar. E é por isso e pelas várias outras coisas que ele me conta em SEGREDO o que me faz estar seguro pro que vou fazer agora.
Ele me largou no meio da praça cheia de gente, subiu em um dos bancos e começou a gritar:
- Pessoal! Alô, pessoal? Galeeera, olha aqui. Você também, senhora, presta atenção. Ei moleque, para a bicicleta que um dia você vai querer fazer a mesma coisa. Isso se você encontrar mulher feito essa.- Ele fez que limpou a garganta enquanto levou o a mão fechada até a boca.- Eu sei que pareço moleque, que me visto feito moleque e sou bem lesado feito moleque, mas o que eu quero dizer aqui, é que perto daquela mulher- e apontou pra mim-, eu me sinto um homem. Me sinto o cara mais sortudo do mundo. É isso aí, um puta sortudo. Ela me faz querer endireitar os ombros, ajeitar o boné e querer comprar um tênis novo. Ela me faz querer aprender a cozinhar pra poder fazer um miojo mais elaborado pra ela jantar. Ela me faz querer arrumar a sala da minha casa pra que quando ela chegue, ela se sinta mais confortável. Ela me faz querer dividir a bata frita! Vocês ouviram isso? Quem, em sã consciência, divide a bata frita, mano?! Ela me faz querer subir num banco de praça no meio de uma tarde de terça, com mó galera ao redor pra poder pedir o que eu tenho certeza que é a coisa mais produtiva na minha vida até hoje!- Ele se calou e todo mundo ficou olhando pra ele. Até que um velhinho que tava lendo um jornal no banco do lado perguntou:
- Pedir o que, garoto?
- AH, Obrigada por ter sacado tio!- ele olhou pra mim, sorriu e falou num tom mais sério- Mari, namora comigo? Tô muito na sua.
Todo mundo olhou pra mim e eu fiquei paralisada. Como eu ia imaginar que uma tarde boba daquelas, no meio do caminho pra comprar sorvete, ia acontecer aquilo?
- Tô esperando, Mari.- ele falou impaciente.- E o tiozinho também, ele quer voltar a ler o jornal!
- Eu namoro sim, seu bobão. Agora desce daí e vem dividir o sorvete comigo.
Ele desceu e foi em minha direção, me deu um abraço de urso e em seguida um beijo de encaixe perfeito.
- Mari, vou te fazer feliz, cê sabe né?
- Eu sei, não dividiria um sorvete com você se não tivesse certeza disso.”
sábado, 24 de novembro de 2012
“-Tá ficando escuro, né? - Ela comentou enquanto mexia as folhas secas do chão com um pequeno graveto.
- Eu já peguei madeira, daqui a pouco acendo uma fogueira pequena. Você tá com frio?
Ela demorou um pouco a responder. Achei que não tinha ouvido. Já estava preparado pra refazer a pergunta, quando ela finalmente respondeu:
- Depende. Dentro ou fora?
Aquela pergunta me deixou imobilizado. Isso era um pedido de ajuda? Era algo em que eu deveria intervir? Não achei palavras que se combinassem de um jeito bom em um comentário imparcial, então continuei calado. Nossa relação sempre foi assim, ela falando e eu quieto, intervindo só em alguns momentos, quando fosse realmente necessário. Mas isso era dentro de um consultório. Eu não sabia como agir ali, no meio de uma floresta fechada onde nossa relação paciente-terapeuta não parecia tão natural. Sem contar meu total despreparo diante de tudo que tinha nos acontecido. Ela percebeu minha inquietação.
- Não tô com frio não, viu?- Ela falou, interrompendo o meu ajeitar de óculos que indicava que eu estava pouco confortável. - Como a gente vai sair daqui?
- Amanhã cedo, a gente procura alguma trilha que nos leve pra estrada. Como estão os ferimentos?- eu perguntei, me aproximando. Aquilo era estranho, mas eu senti que deveria fazê-lo.
- Tá tudo bem. Não se preocupa.- Ela falou sorrindo leve. - Foi meio assustador, né?
- Quando aviões caem, geralmente é.- Foi uma tentativa desesperada de uma piada idiota que felizmente deu certo. Ela riu por alguns segundos.
- Como é possível que só a gente tenha sobrevivido? Quer dizer.. eram umas 170 pessoas.. sem contar piloto, co-piloto e aeromoças. Porque só a gente?- Ela parecia um pouco inconformada.
- Se eu acreditasse em destino, diria que o nosso não estava previsto pra acabar aqui. Mas, até agora, acredito que tenha sido Ele.- eu completei apontando pro céu.
- Você não acredita em destino, mas acredita nele?- ela parecia incrédula.
- Se eu acreditasse em destino, desacreditaria de todas as possibilidades a que tenho acesso por natureza, eu seria mero escravo de coisas previstas…
- Acreditar nele requer a mesma coisa.- ela me interrompeu.
- Não exatamente. Além do mais, acreditar Nele é natural pra mim. Não consigo não fazê-lo.
- Eu não acredito que ele exista.
Ela parecia não ter ouvido uma palavra sequer do que eu tinha dito, por isso decidi continuar de onde ela havia partido.
- Então se esforce um pouco mais pra entender porque você sobreviveu e os outros não.
- Eu nunca ouvi tanto a sua voz. - Ela me olhou curiosa. Devo ter ficado da cor de um tomate, pelo que ela disse depois:- mas isso não é motivo pra ficar sem jeito.
- Eu não estou sem jeito. É que eu nunca tinha me deparado com uma situação em que eu não poderia escapar de uma aproximação maior com um paciente.
- Eu nunca achei que te encontraria nesse avião. Ou melhor.. nunca achei que te encontraria nos destroços desse avião. Isso é estranho, né? Já que você acredita.. o que acha que deus pensa sobre isso?- Ela estava frente a frente comigo, agora. E eu, desengonçado, não parava de mexer nos óculos.
- Acho que a gente vai descobrir depois.- foi a única coisa que consegui dizer.
- Acho que ele sabia que eu precisava arrumar a minha vida. E você é quem tem me ajudado nisso.
- Então esse seria o motivo de eu permanecer vivo?
Ela pensou um pouco. Sentiu-se constrangida por ter dito aquilo. Após alguns minutos de silêncio, ela arriscou:
- Ou ele sabia que você precisava de alguém que te fizesse acreditar em destino.- ela sorriu bonito.
- Ou ele sabia que você precisava de alguém que te fizesse acreditar Nele.- eu sorri de volta.
- Ou ele só pôs o botão de salvar no aleatório e nós somos uns putos sortudos.
Refleti um pouco e disse:
- Ou isso.
Nós dois rimos e estendemos a conversa. Ela parecia cansada e eu senti que deveria fazê-la se sentir mais confortável.
- Você quer deitar na minha perna?
- Tá me cantando, doutor?- ela sorriu de um jeito que eu não pude evitar de observar por mais tempo. E eu me atrapalhei todo. Pra variar.
- Cla-claro que não. Só achei que seria mais conf..-antes que eu pudesse terminar, ela já estava deitando a cabeça na minha coxa. Sem saber o que fazer, fui pousando aos poucos minha mão em sua cabeça.
- Cê não vai dormir, doutor?- Ela perguntou já um pouco sonolenta.
- Fernando..pode me chamar assim.- Eu falei isso, nem sei porque.Talvez porque fosse incômodo ela me chamar de doutor quando a situação não favorecia isso. Ou porque do jeito que perdi a postura e me mostrei completamente desengonçado, talvez eu não estivesse mais em posição de terapeuta. Ou talvez porque eu achasse que meu nome ficaria mais bonito sendo dito por ela. Ela virou o rosto e olhou pra mim sorrindo:
-Cê não vai dormir, Fernando?- e aconchegou-se melhor em meu colo. Eu tinha razão. Meu nome se tornou uma melodia muito linda ao sair de sua boca.
Preferi não responder. Deixei que ela caísse em sono profundo, teríamos um longo dia na manhã seguinte. Deitei com os braços cruzados sob a cabeça e olhei pro céu. Fiquei pensando no que aquilo tudo representava pra Ele, qual era o propósito. Antes que pudesse perceber, meu corpo já havia se rendido e eu adormeci feito criança no colo do pai.”
- Eu já peguei madeira, daqui a pouco acendo uma fogueira pequena. Você tá com frio?
Ela demorou um pouco a responder. Achei que não tinha ouvido. Já estava preparado pra refazer a pergunta, quando ela finalmente respondeu:
- Depende. Dentro ou fora?
Aquela pergunta me deixou imobilizado. Isso era um pedido de ajuda? Era algo em que eu deveria intervir? Não achei palavras que se combinassem de um jeito bom em um comentário imparcial, então continuei calado. Nossa relação sempre foi assim, ela falando e eu quieto, intervindo só em alguns momentos, quando fosse realmente necessário. Mas isso era dentro de um consultório. Eu não sabia como agir ali, no meio de uma floresta fechada onde nossa relação paciente-terapeuta não parecia tão natural. Sem contar meu total despreparo diante de tudo que tinha nos acontecido. Ela percebeu minha inquietação.
- Não tô com frio não, viu?- Ela falou, interrompendo o meu ajeitar de óculos que indicava que eu estava pouco confortável. - Como a gente vai sair daqui?
- Amanhã cedo, a gente procura alguma trilha que nos leve pra estrada. Como estão os ferimentos?- eu perguntei, me aproximando. Aquilo era estranho, mas eu senti que deveria fazê-lo.
- Tá tudo bem. Não se preocupa.- Ela falou sorrindo leve. - Foi meio assustador, né?
- Quando aviões caem, geralmente é.- Foi uma tentativa desesperada de uma piada idiota que felizmente deu certo. Ela riu por alguns segundos.
- Como é possível que só a gente tenha sobrevivido? Quer dizer.. eram umas 170 pessoas.. sem contar piloto, co-piloto e aeromoças. Porque só a gente?- Ela parecia um pouco inconformada.
- Se eu acreditasse em destino, diria que o nosso não estava previsto pra acabar aqui. Mas, até agora, acredito que tenha sido Ele.- eu completei apontando pro céu.
- Você não acredita em destino, mas acredita nele?- ela parecia incrédula.
- Se eu acreditasse em destino, desacreditaria de todas as possibilidades a que tenho acesso por natureza, eu seria mero escravo de coisas previstas…
- Acreditar nele requer a mesma coisa.- ela me interrompeu.
- Não exatamente. Além do mais, acreditar Nele é natural pra mim. Não consigo não fazê-lo.
- Eu não acredito que ele exista.
Ela parecia não ter ouvido uma palavra sequer do que eu tinha dito, por isso decidi continuar de onde ela havia partido.
- Então se esforce um pouco mais pra entender porque você sobreviveu e os outros não.
- Eu nunca ouvi tanto a sua voz. - Ela me olhou curiosa. Devo ter ficado da cor de um tomate, pelo que ela disse depois:- mas isso não é motivo pra ficar sem jeito.
- Eu não estou sem jeito. É que eu nunca tinha me deparado com uma situação em que eu não poderia escapar de uma aproximação maior com um paciente.
- Eu nunca achei que te encontraria nesse avião. Ou melhor.. nunca achei que te encontraria nos destroços desse avião. Isso é estranho, né? Já que você acredita.. o que acha que deus pensa sobre isso?- Ela estava frente a frente comigo, agora. E eu, desengonçado, não parava de mexer nos óculos.
- Acho que a gente vai descobrir depois.- foi a única coisa que consegui dizer.
- Acho que ele sabia que eu precisava arrumar a minha vida. E você é quem tem me ajudado nisso.
- Então esse seria o motivo de eu permanecer vivo?
Ela pensou um pouco. Sentiu-se constrangida por ter dito aquilo. Após alguns minutos de silêncio, ela arriscou:
- Ou ele sabia que você precisava de alguém que te fizesse acreditar em destino.- ela sorriu bonito.
- Ou ele sabia que você precisava de alguém que te fizesse acreditar Nele.- eu sorri de volta.
- Ou ele só pôs o botão de salvar no aleatório e nós somos uns putos sortudos.
Refleti um pouco e disse:
- Ou isso.
Nós dois rimos e estendemos a conversa. Ela parecia cansada e eu senti que deveria fazê-la se sentir mais confortável.
- Você quer deitar na minha perna?
- Tá me cantando, doutor?- ela sorriu de um jeito que eu não pude evitar de observar por mais tempo. E eu me atrapalhei todo. Pra variar.
- Cla-claro que não. Só achei que seria mais conf..-antes que eu pudesse terminar, ela já estava deitando a cabeça na minha coxa. Sem saber o que fazer, fui pousando aos poucos minha mão em sua cabeça.
- Cê não vai dormir, doutor?- Ela perguntou já um pouco sonolenta.
- Fernando..pode me chamar assim.- Eu falei isso, nem sei porque.Talvez porque fosse incômodo ela me chamar de doutor quando a situação não favorecia isso. Ou porque do jeito que perdi a postura e me mostrei completamente desengonçado, talvez eu não estivesse mais em posição de terapeuta. Ou talvez porque eu achasse que meu nome ficaria mais bonito sendo dito por ela. Ela virou o rosto e olhou pra mim sorrindo:
-Cê não vai dormir, Fernando?- e aconchegou-se melhor em meu colo. Eu tinha razão. Meu nome se tornou uma melodia muito linda ao sair de sua boca.
Preferi não responder. Deixei que ela caísse em sono profundo, teríamos um longo dia na manhã seguinte. Deitei com os braços cruzados sob a cabeça e olhei pro céu. Fiquei pensando no que aquilo tudo representava pra Ele, qual era o propósito. Antes que pudesse perceber, meu corpo já havia se rendido e eu adormeci feito criança no colo do pai.”
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
E se eu precisar de um pouco de tempo longe do mundo, você entende que é pra você chegar mais perto? Se eu te disser que você enche minha alma de luz, você fica e faz isso ser permanente? Eu não sei exatamente de onde vêm esses sentimentos incríveis que você faz brotar em mim, mas tenho que dizer que são os melhores que já senti. Uma tarde com você vale mais do que um mês inteiro de presenças vazias. Não tô dizendo que o resto das pessoas perderam a graça, mas elas seriam bobas de querer competir com o efeito que você me causa. Você têm me ajudado no que eu mais tenho dificuldade, em crescer. É isso aí, aquele ato que acontece quando você começa a saber superar as coisas e aprender com elas. Aquela coisa que faz você deixar pra trás o que é pra estar lá e puxar pra perto o que tá aqui, agora. Você é quem tem me ensinado a viver um dia de cada vez e com cuidado. É na sua segurança que eu perco o equilíbrio e é na minha falta de jeito com as coisas que você encontra a diversão. É na sua mão que eu aceito o caminho e é no meu olhar que você se perde. É na sua voz que eu ouço o amor e é no meu abraço que você encontra paz. Não somos metades que se completam, somos inteiros que se fazem metade. Qual a diferença? Sabemos bem o que temos, mas deixamos o outro nos dar o que ele não conseguir encontrar. Somos a soma estranha onde o resultado é sempre um.
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