- E então, o que você gosta de fazer?- Já faziam dez minutos minutos desde que o elevador tinha parado e eu tinha notado a presença dele lá. Olhei pra ele com uma expressão que mostrava que eu não estava a fim de papo com um estranho de calças largas e barba mal feita.- Eu tô puxando assunto porque seu celular tá sem sinal, o telefone do elevador não funciona e, como hoje é aniversário da cidade, vão demorar um pouco pra nos soltarem.- Ele disse enquanto rabiscava numa prancheta velha de madeira.
Continuei calada. Depois de mais dez minutos de briga com meu celular e com os botões do elevador, eu finalmente me rendi e sentei ao lado dele no banco desbotado. Olhei pro lados e disse:
- Eu pinto. - fiz uma pausa- Gosto de pintar. Em telas, paredes, paineis.. você sabe..- fiz outra pausa- Olhe, desculpe o mal jeito. É que tenho uma exposição pra ir daqui a alguns minutos.. primeira vez que um dos meus trabalhos vai ser exposto em algum lugar decente.- baixei a cabeça e fiquei refletindo sobre isso.
Ele parou de rabiscar por um tempo, sorriu, me olhou e disse:
- Acredito que logo vão nos tirar daqui, tá?- e voltou a rabiscar.
Eu fiquei olhando pra ele. Não era feio, pelo contrário. E era muito charmoso, mas pelas roupas e pela barba, parecia fazer um grande esforço pra não ser.
- Eu tenho aqui comigo umas folhas em branco, caso queira se distrair.- Ele disse, interrompendo meus pensamentos e sem tirar os olhos do papel.
- O que você tá fazendo?- Eu estava muito curiosa.
Ele sorriu.
- Você gosta de pintar e eu gosto de escrever.
- Sério? Sobre o que você escreve?
- Quase tudo.. depende do que vem na mente.
- E já pensou em publicar algum livro?
Ele sorriu de novo. Comecei a gostar daquele modo sutil que ele tinha de sorrir de repente.
- Já publiquei dois. Tô trabalhando em outro.
Eu fiquei pasma. Um escritor morando no mesmo prédio que eu e eu nunca soube disso? Logo eu que era alucinada por livros? Perguntei os títulos das duas obras e fiquei ainda mais perplexa em saber que aquele livro simpático que eu tinha ganhado de um ex namorado- e que era um dos meus xodós- tinha sido escrito por ele.
- Você, definitivamente, tem o dom da escrita. Adoro esse livro.
- As coisas saem interessantes quando gostamos do que fazemos. O mesmo deve ocorrer com suas pinturas. - ele era muito tranquilo, ao contrário de mim que era sempre tão agoniada com tudo- Suas obras devem ser muito expressivas. Na maioria das vezes, senão sempre, a obra descreve o autor.- eu assenti sorrindo. As palavras dele eram muito bem encaixadas e sempre soavam bonitas.
- Você não vai pra festa em homenagem ao aniversário da cidade?- perguntei.
- Ainda não sei, preciso terminar de escrever esse capítulo.
- Posso ver?- Eu sabia que ele não ia permitir, mas pedi mesmo assim. E fiquei surpresa a vê-lo estender a velha prancheta em minha direção.
- São só rascunhos.
Comecei a ler e sorri ao ver o que estava escrito:
“Ela entrou no elevador, a moça bonita do quinto andar. Pareceu não perceber minha presença. A calça jeans colada, a blusa simples e solta com rabiscos abstratos e o coque apressado e desarrumado indicavam que ela tinha pouco tempo pra chegar ao seu destino. Tinha jeito de artista. Nunca perguntei a ninguém no que ela trabalhava, mas tinha uma forte intuição que dizia que mexia com arte. Ainda não sei exatamente que tipo de arte, mas seja lá o que for, tem cara de quem gosta do que faz. Suas expressões sempre aflitas e seu jeito apressado indicam que está sempre correndo contra o tempo. O elevador parou e as pernas dela tremeram. “não, não, não!”, ela repetia desesperada. Eu sorri enquanto a via apertar todos os botões possíveis do elevador e esquecia de apertar o botão de “calma” dentro do próprio corpo. Agora somos só nós dois, a penumbra e o velho banco desbotado. E ela enfim notou minha presença.”
- Isso não é um capítulo de um livro. - eu disse, sorrindo- Você descreveu nossa situação.
- Eu nunca disse que era de um livro.
- Ok..e porque não terminou de escrever, se depois que eu “notei sua presença”, você parecia continuar escrevendo?
- Nos capítulos da vida, às vezes, as palavras perdem a urgência em serem usadas. Parei de escrever pra poder sentir o momento. Mas continuei demonstrando que estava escrevendo pra manter sua atenção voltada pra mim.
- Muito esperto, você! E onde você publica os capítulos da vida? - Nesse momento o elevador começou a descer e a porta abriu. Apressei-me em sair.
- Na alma!- ele falou alto o bastante pra que eu escutasse. Quando virei, a porta do elevador já estava fechando e a última coisa que vi foi o sorriso sutil dele. E sorri também.

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