Ela olhou em volta. As mãos pareciam não mais caber nos bolsos daquela jaqueta surrada. Os olhos ardiam de frio- ou de saudade. Não sabia a quanto tempo estava ali. Horas, minutos, segundos? Era difícil dizer, esqueceu o relógio em casa e o celular estava em algum lugar da bolsa que também estava em casa. Era difícil dizer quanto tempo se passou desde que chegou, a saudade a impedia de diferenciar horas, minutos e segundos, tudo parecia uma eternidade. Seus pés estava inquietos dentro do all star vermelho e os lábios eram constantemente mordidos. Ele não viria. E talvez tivesse mandado uma mensagem cheia das desculpas que ela já conhecia. Mas ela estava lá, a saudade a empurrou pra fora de casa e a esperança a tomou pela mão. Ela sentou no banco da praça, o mesmo onde que eles passaram horas conversando durante onze anos. Os cabelos lisos um pouco assanhados pelo vento forte e as mãos agora se aqueciam mutuamente. O coração no mesmo ritmo descompassado de quando o nome dele pairava sobre sua mente. Os olhos azuis se fecharam por um tempo. Na esquina, a silhueta magra que tanto lhe fazia estremecer, o boné virado pra trás e as calças largas. Ele não se encaixava nos padrões de beleza, mas pra ela, ele era o garoto mais bonito do bairro. Faziam o quê? Uns oito meses? Não, onze meses e cinco dias. Ela respirou fundo e sorriu.
- Ei! Você veio! - Ele gritou de longe.
“Eu sempre venho..”
- Pois é, eu não tinha muita coisa pra fazer.- e sorriu levantando-se do banco.
Ele correu na direção dela, abraçou-a forte e rodou com ela em seus braços.
- Nossa, tinha esquecido o quanto seu cheiro era gostoso. É algo parecido com morango, né?- E sorriu olhando nos olhos dela.
- É mais ou menos isso. - “Na verdade, não tem nada a ver com isso..”- E então, como você tá? Faz tanto tempo..
- Eu tô super bem. A nova cidade foi um saco no começo, mas eu acostumei. E você? Como tem se saído sem mim?
- Ah, muito bem ué! Eu sou uma garota esperta, esqueceu?
- Claro que é. Eu te ensinei o esquema todo, sabe?
Ela deu um soco de leve no braço dele.
-Não seja idiota. Você só aperfeiçoou minha esperteza.
Ele sorriu, olhou pros lados e disse baixinho.
- Você ficou mais bonita.
- Depois que parei de andar com você, aconteceu isso, acredita?- E sorriu.
- Idiota! Você sempre foi bonita, só que agora tá mais.- Disse ele mexendo no boné.
- Deve ter um monte de novidade pra me contar, já pode começar.- Ela desconversou.
- Ahn.. Uma das novidades já ta quase chegando. E acho que você não vai acreditar.
“Ok, ótimo! Deve ser alguma namorada linda que ele deve ter arranjado. UOU! ótimo.. como eu sou idiota!”
- E você? Alguma novidade?
- Nada. Só uns lances de sempre com o Bruno.- Mentiu. Fazia uns seis meses que nem via o Bruno.
- Ah.. o Bruno e você ainda ficam é?- Ele pareceu um pouco incomodado.
- Sabe como é, né? Você é um ótimo cupido.
- Pois é..- Olhou pro lado e sorriu. - Olha só, a minha novidade chegando!
Ela olhou pro lado e ficou boquiaberta.
- Aquela lá é a Clara? Quando ela chegou da Inglaterra?
- Pois é! Não é um máximo? Minha maninha chegou ontem. Por isso eu vim pra cá. O ap dela ainda é aqui.- E sorriu.
“Muito bem, idiota. Pra que diabos você foi falar do Bruno?”
- Oi oi, Jú! Como que cê tá? Faz muito tempo que não te vejo! Tá linda demais! - Clara a abraçou forte.- E aí, vocês dois já resolveram assumir o namoro?
Os dois ficaram sem jeito.
- Que nada Clarinha, a Jú só tem olhos pro Bruno.- sorriu - Não me quer, nunca me quis.- E choramingou.
- Idiota.. Não, com o Bruno é um lance. E com o Raphael é só amizade.. sempre foi, né Rapha?
- É..
- Bom, eu vou dar uma festinha hoje a noite lá no meu ap, Jú. Aparece, tá?- disse Clara já se afastando- E Raphael, coragem. Já são onze anos, cara!
- Coragem pra que Rapha?
- Nada, a diferença de fuso horário deve ter afetado a cabeça da Clara..
Silêncio.
- Senti saudades..- ela disse baixinho.
- Eu mandei cartas..
- Eu sei.
- Por que não respondeu? Nem ligou..sei lá.
- Não soube lidar com isso. Eu te esperei nessa praça aqui umas três vezes durante esses meses e você não apareceu. Quase não vinha hoje.
- Eu sei, me desculpa. Talvez eu também não soubesse lidar com isso também.
- Acho que a culpa foi daquele beijo que a gente deu antes de você ir embora.
- Talvez..- Ele colocou as mãos nos bolsos e chutou uma pedrinha- Mas não me arrependo. Eu gostei.. Só não soube lidar com tudo que eu senti depois.
- Você nunca sabe lidar com esse tipo de coisa. E eu nunca sei lidar com o fato de você não saber lidar. - Os dois riram.
- É. Complicado. Você vai na festa?
- Provavelmente.
- Com o Bruno?
- Dificilmente.
- Por que?
- Porque eu só falei nele porque pensei que sua novidade era uma namorada.
Ele riu alto.
- Eu não namoro. Você sabe disso.
- É, eu sei. Mas se passaram onze meses- “e cinco dias”-, algumas coisas poderiam ter mudado. Nunca se sabe, né?
- Eu não sou de namorar.
- É, eu lembro.
- Mas..- chutou outra pedrinha.
- Mas?- Ela estava ansiosa por cada palavra que saía da boca dele.
- Mas eu namoraria com você.
Silêncio.
- Acho que eu poderia lidar com isso.- Ela disse olhando para os lados.
- Acho que eu também poderia.- uma pausa- Acha que daria certo?
- Acho que a gente faria dar.
- Acho que a gente pode fazer dar.
Ela olhou pra ele, os olhos pareciam maiores de tão ansiosos.
- Tava pensando se você quer fazer isso dar certo.
- Eu quero.- disse baixinho- Sempre quis que des..
Antes que ela pudesse terminar de falar, ele a beijou. Onze anos, onze meses e cinco dias de espera e finalmente eles admitiram para si mesmos que precisavam mais um do outro do que um dia já se permitiram. O sentimento envolvido no beijo era mais que amor, havia um toque alívio por finalmente ter chegado o dia e havia também a sensação de tudo ter acontecido no momento certo.

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