"Festa estranha com gente esquisita..”, foi o trecho de música que conseguiu lembrar ao chegar na entrada daquela festa. Deviam ter umas cinco ou seis pessoas que pareciam normais, o resto se vestia de um jeito muito esquisito.
- Que bom que você veio!- Anderson a puxou para um abraço.
- Pois é! Eu disse que vinha, né?- Ela respondeu um pouco sem jeito.
- Entraí, tem uma galera que eu quero te apresentar.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele a arrastou pra dentro daquela casa com decoração esquisita. Por dentro haviam luzes negras e enfeites bizarros. Os convidados pareciam ter saído de filmes de terror.
- Anderson.. Porque tá todo mundo vestido estranho?
Ele parou de puxá-la e virou-se.
- Você não me ouviu dizer que o tema da festa é halloween?
Ela mordeu os lábios e levantou as sobrancelhas.
- Ahn é, claro! Eu me esqueci completamente. Foi mal.
Ele bagunçou o cabelo dela e deu-lhe um beijo na testa.
- Bobinha!
Continuaram andando. Luciana travava uma guerra com os enfeites que insistiam em prender nos paetês de sua blusa.
- Luh, esses são meus irmãos, Josh e Caio. Essa é minha irmã Julie, e esses são meus pais, Carlos e Juliana.
Luciana não podia estar mais envergonhada. Faziam apenas duas semanas que ela Anderson começaram a sair e ele já estava apresentando toda sua família pra ela. Aquilo era tão assustador e esquisito quanto aquela festa inteira.
- Prazer, Luciana. - Disse, educadamente.
- O Anderson não para de falar de você.- Disse Julie, a irmã mais nova.
- Ahn.. é? Que bom.. Acho que vou pegar algo pra beber, tá?
Luciana saiu em busca de alguma mesa com bebidas. Não demorou muito pra se deparar com algum tipo de gruta improvisada onde tinham alguns recipientes bizarros contendo vinho. Imaginou que deveria parecer sangue ou algo do tipo. O garçom vestido de vampiro apressou-se em encher uma taça pra ela, mostrando os caninos enormes e falsos através de um sorriso forçado. Ao pegar a taça, virou-se e deu de cara com Caio.
- Porque você não veio caracterizada?- Ele perguntou sorrindo.
- Ahn.. Não ouvi o Anderson dizer qual o tema da festa.- Luciana falou despreocupadamente enquanto tomava um gole do sangue-vinho.- E você, porque não tá fantasiado? Afinal.. você é irmão do aniversariante.
- Ser irmão de um idiota não te faz ser também, certo?- Ele sorriu e pegou uma taça que o garçom-vampiro já havia enchido.
- Nossa, isso foi rude.- Luciana olhou com uma cara que misturava sarcasmo com “tenho que defender o meu paquera retardado”.
- Ah.. vamo combinar. O cara ta fazendo 22 anos e dá uma festa a fantasia? Se eu fosse fazer uma festa de 22 anos, eu mandava meus pais saírem, liberarem a casa e dinheiro, compraria muita bebida, ligava um som alto, chamava a galera e pronto. Que mané buffet e decorador, cara..- e riu levando a taça até os lábios.
Luciana não sabia muito bem o que dizer, mas concordava demais com o tal Caio.
- Você tem quantos anos?- Ela perguntou.
- Segredo. - Ele sorriu torto, o que o fez parecer um pouco charmoso. - Mas me conta, o que você viu no meu grande irmão bruxo? Não me diz que foi o poder dele de transformar vinho em sangue! Ah, mas pode ter sido o modo como ele fala, meio gago. Muito charmoso né?- Sorriu de novo e deu outro gole no vinho.
- Na verdade .. é meio estranho você falar essas coisas do seu próprio irmão, na festa de aniversário dele..pra garota com quem ele ta saindo..- Luciana estava se divertindo com aquilo. Caio parecia ser o mais normal por perto. O resto dos convidados parecia se sentir mesmo em filmes de terror ou algo do tipo. Mas, apesar de toda a esquisitice, era fato que estava saindo com o bruxo aniversariante, não podia fazer feio.
- Cara, me desculpa. Eu amo meu irmão. Sério. Só que ele tem 22 anos e parece não crescer. Pôxa, ele é inteligente, meu pais dão tudo que ele quer, ele ta saindo com uma menina linda e olha o que ele me apronta! Uma festa temática pra completar os 22 aninhos. Sem contar o vício em joguinhos de computador, as cuecas de desenho animado, a coleção de gibis..- Caio parecia super sincero e indignado. Luciana não conteve o riso.- O que foi?
- Desculpa, desculpa..- dizia ela entre uma risada e outra.- É que é engraçado você todo revoltado com a aparente falta de maturidade do seu irmão.
- Ahn..- ele sorriu sem jeito.- Desculpa ficar falando tudo isso. É que.. ele é o mais velho. Daí se as garotas olham pra ele e veem isso. Imagina quando olharem pra mim e pro Josh. Isso SE quiserem olhar..
- Deixa de ser bobo. Você é bonito e engraçado ué..
Ele sorriu. Tinha os cabelos super cacheados e dourados, a pele bronzeada e os olhos super claros. O sorriso era enorme e bem branquinho. Vestia uma camisa branca sem detalhes com uma jaqueta preta por cima, calça jeans desbotada e um tênis surrado.
- Você tá me olhando de cima a baixo e ainda não descobriu minha fantasia.
Luciana sorriu e disse:
- Mas eu pensei que você não gostava disso aqui, porque se fantasiaria?
- Você olhou bem pra minha família? Eles não me deixariam sair sem fantasia. Daí eu coloquei qualquer coisa e disse que eu tava fantasiado de mocinho de filme de terror.- fez uma pose e mostrou um sorriso forçado. Luciana não conteve o riso.
- Você é idiota!
- É o mal de morar com alguns idiotas. Mas enfim, até agora eu era um mocinho sozinho, agora você chegou e faz par comigo. Tenho que salvar você do bruxo idiota.
- Não fala assim..- Ela ficou séria. Não parecia muito adequado ficar encantadinha pelo irmão mais novo do cara com quem tava saindo.
- Ah, vai.. me diz o que é melhor: ficar com o mocinho idiota-vulgo herói- ou com o bruxo lesado e meio gago que coleciona gibis e pijamas de desenhos animados?
Luciana parou um pouco pra pensar, sabia qual era sua resposta, mas preferiu mudá-la.
- Eu acho que é melhor eu achar o bruxo lesado porque é com ele que eu tô saindo.- colocou o copo na mesa e saiu.
Não era difícil localizar Anderson porque ele tava com uma capa vermelha chamativa e uma espécie de cajado com uma bola transparente na ponta. Sem contar que ele ficava imitando uma risada estranha de bruxo o tempo inteiro.
- Oi minha gatinha.- Ele a puxou pra um abraço e ao invés de beijá-la, roçou seu nariz no dela.
- Oi Anderson.- Luciana tentava se desvencilhar sutilmente.
- Amorzinho, espera enquanto eu vou pegar sangue pra gente beber. Depois eu vou te apresentar pros meus amigos magos. HAHA.- Aquilo foi a gota d’água.
- Anderson, não precisa falar assim.. é que..
- É que.. o que?- a expressão dele ficou séria.
- É que é meio bobo. Na verdade é muito idiota. E você parece um retardado falando desse jeito.
- Ahn..b-bom, s-se vo-você acha isso-so É me-melhor n-nã-não fi-fi-car co-o-migo aa-go..- antes que ele terminasse, Luciana impacientou-se.
- Ok, escolho o mocinho idiota. - E saiu sem explicar o que tinha acabado de dizer.
Andou um pouco até a gruta estranha de bebidas, olhou ao redor e não encontrou caio. Quando ia se virar, sentiu alguém lhe puxar com força. Lábios carnudos e molhados encontraram os seus. O beijo tinha gosto de vinho. Sentiu uma mão firme em sua cintura e outra entre seus cabelos. Sentiu um cheiro amadeirado misturado com amaciante de roupa. Juntou forças e finalmente empurrou o idiota que havia lhe beijado de surpresa.
- Nunca diga o que deseja à um bruxo, pode ser que se realize. - E lá estava o sorriso mais limpo e esperto do mundo.
- Não seja idiota..- Luciana estava sem jeito.
- Tô brincando. Eu ouvi você falando com meu irmão. Desculpa o mal jeito. É que eu queria te beijar faz tempo..
- Tipo, há uns 10 minutos atrás?- disse, ironicamente.
- Não.. tipo, uns 3 meses atrás. Muito antes do meu irmão retardado te chamar pra sair.
- Como assim?- Luciana estava confusa.
- Bom.. eu e meus irmãos sempre ficávamos naquela praça em frente a faculdade. E você sempre passava cheia de pose e deixando um cheiro doce pra trás. Sempre achei você linda. E.. bom, dos três, eu sou tido como o “mais garotão”, porque costumo jogar cantadas idiotas pras garotas mais novas e elas sempre caem. Mas você é mais velha e tem cara de saber quando tá falando com um idiota. Não queria levar um fora.. então mandei meu irmão mais velho ir até você. Disse tudo que ele precisava falar- o que eu diria se fosse mais velho né..- e ele acabou ganhando você. Primeira vez que perdi pro meu irmão retardado.
Luciana não sabia se ria ou ficava irritada com tudo aquilo. Preferiu a segunda opção.
- Então, tudo isso foi um jogo? Não pensou que se você tivesse ido falar comigo do jeito que mandou o retardado do seu irmão falar, poderia ter me ganhado? Porque, pelo menos, eu não me sentiria tão estúpida.
- Ei, Luciana. Calma, ok? Era fácil eu jogar cantadas idiotas pras garotinhas com quem eu saía. Mas com você.. eu não podia ser idiota. Eu tava muito a fim de você. De verdade.
- Agora você ferrou com tudo, né? Perdeu de todo jeito. - Luciana cruzou os braços feito uma criança.
Caio olhou pros lados, andou um pouco pra longe dela e depois voltou. Sorriu, estendeu a mão e disse:
- Oi? Meu nome é Caio e faz pouco tempo que entrei na faculdade. Faço Odontologia. Minha sala fica do lado da sua e todo dia eu te vejo passar. Acho você maravilhosa. Não sei bem o que dizer pra fazer com que você aceite sair comigo, então se puder pelo menos sorrir, eu ficaria grato.
Luciana lutou contra o sorriso que estava se formando em seus lábios, mas não conseguiu. Apertou a mão de Caio e disse:
- Você é, definitivamente, um idiota. Mas esse é, definitivamente, um ótimo recomeço.- Os dois sorriram e beijaram-se novamente.

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