Ele me olhava com aquela cara de “o que é que a gente tem que a gente sempre volta?” e eu sorria como quem diz “você precisa da minha bagunça pra agitar os seus dias”. Pra quem via, nós não éramos, nem de longe, um casal que parecia ter futuro. Ele estudava e trabalhava, era todo engomadinho e gostava de conversar. Eu vivia por aí, nas baladas, nos bares ou fumando na varanda do meu apartamento pequeno e bagunçado. Não gosto de muito papo, mas ele me arranca mais palavras do que qualquer outra pessoa já me fez falar. Eu gosto de quando ele começa aquele discurso de que eu devo fazer algo pra consertar minha vida e eu olho pra ele e digo, sorrindo, que não tem nada quebrado por aqui. Eu adoro ver ele assim, cabelo bagunçado, roupas amassadas e olhar fixado no teto. Eu também não sei o que é que fez a gente continuar acabando nessa mesma cama por sete meses, mas aqui estamos nós. Eu costumo pensar que a minha bagunça alivia o amontoado de obrigações dele, e a responsabilidade dele, vez ou outra, equilibra minha falta de jeito com a vida.
- Você tá com fome? -ele perguntou, interrompendo meus pensamentos.
- Um pouco.
- Vamo sair pra comer algo?
- Mas aqui tá tão bom. - eu disse, olhando pra ele e fazendo beicinho. É, ele conseguia que eu fizesse papel de idiota às vezes. Umas vezes eu fazia beicinho, em outras eu até falava com voz de bebê. Mas o que diabos estava acontecendo comigo?
- É, mas eu já tenho mesmo que ir.. Pensei em te levar pra comer algo, depois ir pra casa. Trabalho cedo amanhã.- ele estava tenso, deu pra perceber quando ele desviava o olhar pra todos os lados evitando encontrar meus olhos.
- Tá acontecendo algo?
- Não.. eu só preciso ir embora.- Ele se vestia lentamente e eu olhava cada parte do corpo dele como se fosse a última vez. Dizem que a gente sente quando é a última vez, mas nunca aceita que seja. Pra mim, tudo bem. A gente nunca ia dar certo mesmo.
- Você volta?- Ok, não tava tudo bem. Se eu perguntei isso, eu devo estar ficando louca em 3,2,1. Como assim ele vai embora? Eu tô sentindo que ele não vai voltar. Que diabos tá acontecendo comigo? Eu não tô muito bem com essa situação. E daí que todo mundo diz que a gente não tem nada a ver? A gente tem sim, se a gente ta aqui depois da porra de sete meses, alguma coisa deve ter funcionado.
- Provavelmente não.
Um silêncio profundo se instalou entre nós e, de repente, meu apartamento parecia ainda menor e sufocante. Peguei minha carteira de cigarros em cima da mesa e fui pra varanda. Não sabia o que dizer, ou não queria dizer. Ele era um cara bacana, dava duro por tudo que tinha. Eu também trabalhava, mas não era pensando em um futuro, era pra sustentar meus vícios. Fiquei lá e esperaria até que ele fosse embora. Sou péssima com despedidas, minha mãe que o diga. Senti ele chegar de mansinho por trás. Ele me abraçou.
- A gente precisa encarar que isso não tá levando a gente a lugar nenhum.
- E a gente quer chegar a algum lugar? Digo, nós estamos bem assim, não?- eu era péssima com as palavras. Resultado de não usá-las muito.
- Eu quero chegar a algum lugar. Você não. Por isso a gente ta sempre preso a algo que nunca evolui. Não posso mais. Eu te amo. Mesmo. Mas eu não posso mais fazer isso comigo.- Ele beijou minha cabeça. Eu fiquei calada. O que eu poderia dizer? Eu empacava a vida do cara. Do cara que eu amava. Eu era um fardo na vida do cara mais incrível que eu já conheci, a única coisa decente que eu podia fazer por ele era deixá-lo ir.
- Se cuida.- Foi tudo que eu consegui dizer.
- Você vai ficar bem?- Ele virou meu corpo de modo que eu o encarasse.
- Eu sempre fico. Qual é!- eu disse, forçando um sorriso e dando um soco de leve no ombro dele.
Ele ficou me olhando por um tempo e, em seguida disse as palavras mais lindas que eu ouvi na vida. E mais duras também.
- Você é maior que tudo isso aqui, sabia? Bastava que você se esforçasse um pouco mais. Não por mim, ou pela sua família ou pra provar qualquer coisa pro resto do mundo, mas por você. Você é criativa, devia usar isso a seu favor. E escreve muito bem, devia trabalhar isso. A sua vida não pode se resumir a sair por aí bebendo, fumando e voltando pra casa quando dá, achando que isso é liberdade, que isso é viver a vida intensamente. Mas não é. Viver a vida de forma intensa é muito mais do que baladas, drogas e independência dos pais. É saber lutar pelo que quer e se se sentir renovado a cada obstáculo pelo qual passa. Se você sempre foge dos obstáculos, como vai aprender a suportar aqueles que são inevitáveis? Faça algo por você mesma. Dê vida a sua própria vida. Porque você pensa que sabe como viver, só que você nem se quer tentou ainda. Se cuida. A gente se esbarra por aí.- Ele me deu um beijo de leve nos lábios e foi embora.
Eu continuei lá, no mesmo lugar, completamente imóvel. Não sabia o que fazer, não sabia como deixar as lágrimas descerem. Mas eu sabia que ele tava certo. Ele sempre esteve. Nas vezes que eu disse que ele não sabia viver a vida, era eu quem não sabia. Passei cinco anos evitando dar de cara com a vida, fugindo de todas as responsabilidades que não fossem pagar as contas. Era hora de crescer, depois de tanto tempo achando que eu já era madura. Ele foi embora, mas antes ele fez o que sempre fazia antes de ir embora, me mostrou que as coisas nem sempre saem como a gente espera e é aí que temos de ir atrás de consertar o que ainda tiver conserto. Andei até a cozinha, peguei uma garrafa de vinho. Precisava me despedir de tudo isso aqui. Ao amanhecer, eu teria de enfrentar a vida. Mas agora, eu só precisava ficar bêbada.

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