sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Não que eu quisesse apagá-la da minha vida, mas esse inferno de ter essas lembranças na cabeça o tempo inteiro me sufoca. Já fazem uns quinze meses, já saí com várias garotas, mas não adianta. O sorriso enorme dela me vem a mente sempre, a pele macia, os olhos misteriosos. Não que não existam outras mulheres incríveis por aí, mas eu andava sem conseguir enxergá-las.
- Você tá bem? - Meus pensamentos foram interrompidos e eu lembrei que estava no meio de um encontro.
- Ahn.. Eu tô bem sim! O que você vai pedir?- perguntei tentando parecer animado.
Ela sorriu.
- O que?- eu perguntei sem entender se eu tinha falado algo de errado.
- É que eu já pedi. Falta só você.
Fiquei sem jeito e peguei o cardápio rapidamente. Pedi o de sempre e voltei a atenção pra ela.
- Como foi seu dia? - Me esforcei pra parecer interessado.
- Você não quer saber sobre o meu dia. Talvez você nem mesmo queira estar aqui agora.- Ela disse despreocupadamente enquanto parecia estar checando emails no celular.
- Claro que eu quero estar aqui. Eu a convidei pra sair, certo?
- Há uma grande diferença entre querer sair com alguém e precisar sair com alguém. - Ela sorriu. As palavras deveriam soar irônicas, mas foram naturais e amigáveis.
Eu sorri desconsertado.
-Talvez. Eu disse talvez, no começo eu não quisesse realmente estar aqui, mas meio que venho mudando de ideia. Você tem ajudado bastante com a sinceridade.- sorri um pouco mais desinibido.
- É que não costumo seguir o script de encontros perfeitos. Eu apenas sigo o roteiro da vida real. E, nesse momento, parece que o cara com que eu provavelmente iria pra cama hoje queria que houvesse outra pessoa em meu lugar. Então que tal falarmos sobre ela?- ela perguntou enquanto levava a taça de vinho até a boca. Fiz uma expressão confusa, o que fez com que ela parasse a taça no ar antes de chegar até os lábios. - Ou ele..
Eu ri.
- Ela. Nada contra gays, mas eu sou 100% hétero. Mas, tem certeza?
- Bom, se eu voltar pra casa agora, provavelmente vou vestir meu pijama velho e assistir a um programa de TV chato enquanto bebo o resto de vinho que tem na minha geladeira. Então acho que posso aguentar ouvir por algumas horas sobre um caos romântico na vida de um marmanjo de 1,90 de altura.- sorriu de leve- Vai, me conta.
Eu abri o maior sorriso, gostei do modo como ela lidava com as situações. Era natural e engraçado. Contei boa parte da minha história com a Érica e a cada detalhe ela se empolgava e perguntava mais. A comida chegou e nós continuamos conversando animadamente. Sem perceber, nós mudamos de assunto e agora falávamos do quanto adorávamos ler e dos melhores livros aos quais já tínhamos lido. E ela me confessou que gostava de escrever também. Entre uma garfada e outra, eu perguntei:
- Me mostra seus textos qualquer dia desses?
- Não faz seu estilo.- pela primeira vez na noite ela pareceu tímida. Parei de cortar o filé e a encarei.
- E o que você acha que faz meu estilo?- perguntei sorrindo.
- Qualquer coisa que não sejam meus textos. - e tomou um longo gole de vinho.
Ela era linda. Os cabelos eram curtos e lisos, os olhos eram pequenos e bastante expressivos. A boca mexia de um jeito extremamente engraçado e encantador quando ela falava rápido demais. Quando acabamos de comer, continuamos conversando um pouco. Pedi a conta e fomos até meu carro. Eu fiz questão de deixá-la em casa. Ela morava em um desses prédios moderninhos super simpáticos. Quando parei, ela tirou o cinto, me olhou e disse:
- Tem um resto de vinho lá em cima que dá pra dois copos. E tem umas calças enormes de algodão que meu irmão deixou que devem servir pra um cara com 1,90. Minha TV tem uns programas chatos que dá pra gente rir se nós prestarmos muita atenção nos erros de gravação. A varanda é uma beleza e no meu computador tem uns textos simpáticos esperando pra serem lidos por alguém além da mulher neurótica e viciada em chocolates que os escreve.- E me olhou sorrindo.
- É o convite mais criativo que já ouvi na vida. - sorri também- Espera só enquanto eu estaciono o carro e compro uma garrafa de vinho pra completar o que tem lá em cima?- Ela sorriu ainda mais quando eu terminei de falar.
Estacionei o carro e, antes de sair, lembrei novamente da Érica. Passei uns minutos pensando em momentos que passamos juntos. “Eu tive uma noite maravilhosa hoje, bem parecida com aquelas que tive com você. Mas agora, eu preciso que você me dê a chance de ser feliz de novo..”- mais um daqueles diálogos mentais que eu estabelecia com a Érica das minhas lembranças. Saí do carro e fui no pequeno mercantil da esquina. Procurei um vinho melhor e, enquanto estava pagando, começou a chover forte. Saí correndo, mas parei bruscamente quando eu a vi. Ela estava de braços abertos e olhando pro céu. Ela sorria feito um anjo. Rodou que nem criança e riu bastante, o que me fez rir também. Me viu e o sorriso ficou tímido. Andei em sua direção, passei meu braço por trás do seu pescoço e disse:
- Acho que vou precisar mesmo daquelas calças. - Nós dois rimos e entramos no prédio.

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